Run baby, run. Or not.
Junho de 2011: meu corpo começa a dar sinais.
Por mais que vocês possam pensar que foi o pé na bunda que motivou, não, não foi. Assim como nem a estética, nem o preconceito nem nada parecido. Na verdade, eu não faço nem idéia do que é bullying, não sei o que é ficar trancada em casa nem ter baixa auto-estima. Sempre fui muito segura de mim e talvez isso tenha retardado esse processo. Talvez se tivesse sofrido algo quanto a isso ou escutasse minha família, eu não tivesse chegado a tal ponto.
Entendam: ser gordo pra mim não é um problema. Não acho que seja desvio de caráter, não acho que seja defeito nem desculpa pra não ser o que quer ser mas tenho minhas opiniões sobre o assunto, mesmo que não muito favoráveis ao que esperam. Tudo que escrevo aqui é completamente pessoal e uma visão de tudo que eu passei por ser assim e olha que nem é nada de tão absurdo. Não houve nada externo que me fizesse querer mudar. Tudo veio de dentro, do desejo de melhorar a qualidade de vida, de me sentir bem comigo, de coisas que antes eu tinha e perdi por conta do peso.
Esse lance de ‘’sou gordo/gorda e sou feliz’’ nunca funcionou pra mim. Eu sempre soube que era gorda e sempre soube que precisava emagrecer. A questão é que eu estava completamente conformada com a ideia mas nunca disse nem pra mim nem pra ninguém que não mudaria. Por que, na real, quem é gordo sabe que está e sabe mais ainda o que tem que fazer. Às vezes só não quer se dar ao trabalho e abrir mão do que tem, simples. Sejamos sinceros: o sacrifício pra isso é muito grande (eu bem sei).
Calma, não me julguem. São casos e casos. Acredito sim que a gente deve se aceitar mas EU deixo isso pro que não tem remédio, como a morte, mas o que me faz mal? Já foi o tempo em que ser gordo era sinal de saúde e magreza era doença, e vice versa. Duvido mesmo (desculpem!) de quem diz que é FELIZ assim. Gostaria de lembrá-los que essa um dia foi a minha certeza também, diga-se de passagem. Mas só não muda de idéia quem não as tem. Mas opiniões a parte, a verdade era uma só: eu estava me matando.
05 do mesmo mês: a pior noite da minha vida. Acordei engasgada e por alguns minutos achei que fosse morrer. E outras vezes aconteceram ao longo dos dias. Comecei a me observar e percebi que dores nos joelhos surgiram. Minhas pernas, antes tão alvas e limpas, estavam cheias de vasos estourados.
Fui à médica por volta dessa época, contei tudo que vinha acontecendo e ela me explicou: os engasgos eram a gordura da papa pesando sobre a língua e fechando a garganta. As dores nos joelhos era o peso do corpo que implorava por socorro. Minha corrente sanguínea pedia ajuda.
Saí da médica assustada e com aquela injeção de ânimo natural. E queria logo. Pronto, estava dada a largada e eu só pensava em correr. E foi aí que a ficha caiu… Lembro-me como hoje, sentada na praia de Icaraí, de todas as lágrimas que derramei quando não consegui fazê-lo por mais de 10 minutos. Eu, antes atleta, já não tinha fôlego. Voltei pra casa arrasada (e de ônibus). Peso: 128,6 quilos.
Dia 18:
Ao longo de todos os dias eu trabalhava meu psicológico e buscava saídas que me fizessem esquecer esse assunto que rodeava meu cotidiano quase que 24 horas por dia. Minha saúde, a coisa mais importante da minha vida, estava em risco. A saúde psicológica também precisava de ajuda.
Festa em General Severiano com as amigas. Ainda pesando por volta dos 128kg. Olha, parecia que eu nunca tinha me dado conta do que eu fiz comigo. Por que entenda, não é só culpa do relacionamento, a parada é altamente pessoal. Deixei de me amar, deixei de me olhar no espelho mesmo quando enxergava o meu reflexo ali. Deixei de escutar o bater desesperado do coração ao subir às escadas, a dor na coluna, a postura, deixei de entender os números. 54 não é lá um número que não se consiga notar, não é? Ainda mais nas roupas. Me diziam e eu não acreditava, até olhar pra todas as fotos que eu tinha. E num estalo, ao vê-las, a única coisa que eu conseguia pensar era: cansei de ser gorda. E não seria mais mesmo. Cansei de me enganar, me sabotar, de prolongar todo o esforço que eu teria que fazer pra ser magra.
Começou nesse mês a minha luta para chegar aos 78 quilos.


